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Eu tentei…

Agora que já me descobriram, vou acabar com a agonia. 

Juro que tentei. Nesses quase dois meses de WordPress, tudo transcorreu tranqüilamente. Até o momento que descobri as limitações do bichinho: se não for pago, as limitações quando ao que você pode ou não colocar no seu blog são imensas. Por isso (e apenas por isso), me rendo novamente ao Blogger e ao seu jeito mais simples de ser.

Terei saudades de algumas coisas… mas não de muitas outras, como as tais limitações.

Infelizmente, não consigo transportar as coisas daqui para lá, então aos poucos vou passando ao menos os posts. Isso pode ser bom, pois muitas coisas que as pessoas não lerão poderão ler lá, enquanto eu estiver nesse trabalho de recuperação (apaguei por impulso o antigo blog, burro que é uma anta esse cabeçudo desse menino Peterso).

Não me chamem de maluco. Sou apenas um pouco inconstante…

Espero vocês lá, novamente, no http://vermelhocarne.blogspot.com

Abraço e obrigado pela paciência. ;)

Conturbação

Momentos conturbados nublam a imaginação de uma forma estranha. Não há motivo, na verdade, para tal conturbação. Talvez a vida esteja mais veloz e eu, ingênuo, tento brecá-la para meu passo. Eu, que sempre corri para ela me alcançar, agora peço arrego, ao menos por um momento.

Muito trabalho, talvez?

Ou muita vontade de fazer mil coisas, traçar mil planos, mas muitas coisas se esvanecem como volutas que dançam em frente ao espelho depois de um banho quente.

Às vezes é só o que desejo: um belo banho quente.

E a vida, tão veloz, me agarra pela mão e faz com que eu a siga, ensandecido. Tantas coisas que ainda não vi, tantas mtas que não alcancei, tantas páginas que não li. Outrora eu adoraria esse ritmo louco da vida, mas agora quero paz.
Muitas vezes, apenas é a paz que desejo.

E tantas coisas que contradizem meu bom humor, que me tiram do sério, que me enfadam, que me surtam. Ainda há verdes olhos que me acalmam, doces beijos que me alimentam o querer. Ainda me seguram nos eixos.

Porém, quando deles me despeço, que há de se fazer, que faço então?

Volto ao mundo enlouquecido, sem freio.

Esqueçam tudo que eu disse. São apenas lamentações de mim, que as odeio de todo meu coração.  Ou falta de imaginação.

Ou quem sabe, os dois…

Encruzilhada

favela.jpg

Se embrenhando nos becos, desgraçados, o menino corria, brincava. Sua bermuda amarela surrada, seus chinelos remendados não mostravam seu destino.

Baixou Oxalufã com as espadas de prata, com sua coroa de escuro e de vício

Baixou Cão-Xangô com seu machado de asa, com seu fogo brabo nas mãos de corisco

Em meio aos batuques do morro, no pandeiro e no atabaque, seu fado tilintou nos jogos de búzios. Mais que depressa as providências foram tomadas. Logo ele seria o rei daquele mundo cão que o rodeava. Acostumado aos tiroteios e aos corpos estirados pelo chão, ele não tinha para onde correr, vivia entre as corredeiras da chuva morro abaixo e os tiros morro acima, nas disputas de polícia, aprendia o que seria em pouco: reizinho nagô, com corpo fechado por babalaôs.

Ogunhê se plantou nas encruzilhadas, com todos os seus ferros, lanças e enxada

E Oxóssi com seu arco e flecha e seus galos e suas abelhas na beira da mata

Não media esforços, o menino, para subir. Já não era sem tempo, já não tinha por quê não: era o dono da boca, mandava e desmandava em seus súditos, dava conselhos ao povo que mal sabia ler e escrever, dos pais de família recebia tratamento especial, era bondoso com as crianças, impiedoso com os inimigos. E tinha inimigos, como os tinha, tantos que seus cães-de-guarda estavam sempre armados até os dentes. Um piscar dos olhos castanhos do garoto e estava armado o circo, com balas zunindo e estocando corpos do mal.

E Oxum trouxe a pedra e a água da cachoeira em seu coração de espinhos dourados

Iemanjá, o alumínio, as sereias do mar e um batalhão de mil afogados

Seu coração também batia quando via a negra Alice, de ancas largas e sorriso farto como seus seios. Paixão de menino, de pequeno que tem nos lábios o gosto da vida adulta. E ela se ria do garoto; quando Iansã vinha em seus gritos e gargalhadas, de espada nas mãos e vermelho nos panos, deixava o garoto em polvorosa, olhos brilhando como o cano que trazia na cintura. O atabaque queimava-lhe os ouvidos e sentia pelo corpo os trancos do barra-vento.

Iansã trouxe as almas e os vendavais, adagas e ventos, trovões e punhais

Oxumaré largou suas cobras no chão, soltou suas tranças e quebrou o arco-íris

Num dia, lhe chamou seu pai-de-santo e profetizou: tua cobiça será teu fim e se não acalmar tua gana não dura mais do que poderia durar. Riu de seu babá, dizendo que não havia corpo mais fechado que o dele, se não pelos Orixás, pelos ferros quentes dos homens. Nesse dia deu uma grande festa, com cerveja e pinga da boa. Não deixou nada faltar para seu povo, o pequeno reizinho do morro esgarçava seu sorriso satisfeito para quem quisesse ver. E bebeu, e dançou e tocou pandeiro como se arpa fosse, o anjo. Porém, havia outros olhos sobre o peito magro e desnudo do guri.

Omolu trouxe o chumbo e o chocalho de guizos, lançando a doença pra seus inimigos

E Nanã-Buruquê trouxe a chuva e a vassoura pra terra dos corpos, pro sangue dos mortos
Ecoaram as gargalhadas na noite escura. Não se via o rosto da gargalhada, eram os Exus que gritavam ao menino o que lhe rondava. Ele se esgueirava nas lágrimas da noite, que tristonha molhava em gotas o rosto do menino. Há muito não sentia medo, pedia a Ogum que lhe guiasse o caminho, mas seu destino chispava nos tijolos em tiros raivosos. Irmãos, irmãs, irmãozinhos, por que me abandonaram?
Cem tiros, foi a contagem oficial. Cem projéteis dilaceraram o corpo, o rosto, os membros do menino. Nada que pudesse fazer, seus inimigos, a polícia, os falsos amigos, todos engatilhados e com uma mira certa: a carcaça suada do garoto que corria e fugia de seus fantasmas. Cada urro e cada grito animalesco quando a carne era navalhada pelos cartuchos maldosos, sangrando a dor de quem já havia conquistado seu mundo. Lembrou de Alice de Iansã, mulher feita, que lhe charmeava com seus balangandante corpo pelas ruelas do morro. Casa comigo? suplicou para ela, dias antes. Escancarando seus dentes brancos de marfim, ela brincava com os cabelos do menino e dizia ah, menino, não me provoque. Não teve tempo para provar à negra Alice do que era capaz, quem era o rei do morro. Destronado pelas matracas fumegantes do mal.
Treze anos de vida sem misericódia e a misericórdia no último tiro.

(Texto inspirado na música Tiro de Misericórdia, de João Bosco)

Folguinha

É bom ter uma folga

Para ter com os amigos

Para curtir com o amor

Para se perder em livrarias

Para comer do bom e do melhor

Largar as teclas solitárias

O monitor desligado

E sair por aí, sem lembrar

Do mundo que se virtualiza

E sentir o cheiro da chuva

Ver o filme tão esperado

Tomar um vinho frutado

E as idéias virão, cavalgando

A mente cheia de textos

Para aqui mais tarde voltar

Então, até lá.

Vamos escrever?

Os Escritores

Hoje acabei um pequeno curso realizado pela Revista Língua Portuguesa (Formação Inicial de Escritores), ministrado pelo Prof. Gabriel Perissé, e digo que dei mais um passo, se não na direção do sonho de publicar um livro, na direção de ter a cabeça mais livre para criar, ousar e viver com as letras. A turma, claro, ajudou muito, foram 4 dias que, apesar de poucos, foram intensos. Cada história que ali foi criada constituiu, de certo, uma nova etapa para cada um. Continuar Lendo »

Quem te leu, quem te lê

livroaberto.jpg

“Ei, aqui!”

Ouço um sussurro, quase um farfalhar. Me assusto, estou numa pequena livraria, dessas que passam de geração para geração no mesmo local e sobrevivem tão-somente pelo amor que têm ao livro. Estou sozinho numa pequena saleta de “degustação”, duas poltronas com seus braços trabalhados e o couro vermelho de seus assentos trazem dignidade ao local um tanto decaído. Uma senhorinha, de olhos muito azuis, tira pós das estantes na sala contígua e resmunga num idioma incompreensível, gutural. A menina do caixa, neta da senhorinha, apenas tira os olhos do computador para dizer, de quando em quanto “Oma, das geht schön!” — “Já está bom, vó”.

“Psiu, esquerda!” Continuar Lendo »

Em busca do sol

cid.jpgAcabei há pouco a leitura de “A Cidade do Sol”, de Khaled Hosseini (tradução de Maria Helena Rouanet), e novamente insisto: os best sellers podem muito bem ser good books. Novamente, o drama se passa no Oriente Médio, Afeganistão, o assunto mais em voga ultimamente depois da queda do dólar. Mesmo os talibãs tendo perdido muito do seu poder, suas marcas nesse país são indeléveis, tanto que o retrato que Hosseini imprime no livro nos dá a impressão de que aquela época de trevas não cessaria nunca.

Entretanto, a história agora se concentra no drama feminino frente ao mundo islâmico. Assunto delicado, foi tratado com muita clareza pelo autor, de origem afegã, e também com muita propriedade. Continuar Lendo »

Joana

Ao voltar para casa, após uma longa e entretida caminhada com o professor Gabriel, entramos no metrô Clínicas, num papo animado. O professor iria para o metrô, eu, como moro há pouco mais de 20 minutos dali, resolvi tomar um ônibus. Porém, não estava sozinho. Estava com Joana.

Nessa entrada do metrô, Joana me aguardava. Sim, não há outra explicação. Revoou pela cabeça de um casal feliz que entrava antes de se grudar, literalmente, nas minhas pernas. Melhor dizendo, no meu quadril, bem no bolso da calça jeans. Gabriel olhou para Joana, olhou para mim e disse: “Isso dá crônica”. Olhei assustado para ela, mas não tomei nenhuma atitude drástica. Pelo contrário, deixei Joana pousada, tranqüilamente, com suas finas patinhas e suas asas coloridas. Sua capa preta poderia esconder algo de maléfico, como acreditavam os mais velhos. Mas o azul e o amarelo ouro do fundo de suas asinhas davam um ar de graça àquele ser rajado. Continuar Lendo »

Orgulhinho bobo…

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(Não precisa ficar vermelho!)

Passeando pelo Google e verificando a existência dos meus antigos blogs (apenas o último ainda sobrevive) descobri uma coisa que me deixou com um orgulhinho bobo, uma satisfação gostosinha. A versão on-line do jornal O Povo (lá do nordeste, não sei direito de ondede Fortaleza! Obrigado, Marcão!) utilizou um trecho do texto A Alegria de Emma, que escrevi em setembro passado, para ilustrar o filme numa mostra de cinema de Fortaleza. O texto foi o seguinte:

“Quarta, às 19h30

A Alegria de Emma, de Sven Taddick

Sinopse: Após receber uma notícia devastadora, Max decide abandonar a cidade grande para conhecer o México. Casualmente, chega à fazenda de Emma, uma mulher que o leva a conhecer a paixão e a lutar pela vida.

Crítica: “No filme, fica muito claro a idéia da escritora Claudia Schreiber, que escreveu o livro que deu origem a esse filme singelo, engraçado e emocionante, de que o amor está na entrega e também na abdicação do ser amado” (Peterso Rissati, do blog Vermelho Carne).”

Talvez seja o único blog que comentou o tal filme, o que acho o cúmulo para um filme tão bom. Mas de qualquer forma, fiquei lisonjeado. Vejam a notícia na íntegra aqui.

Na defensiva

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Sempre tive problemas com meu nome. Peterso. Sem “n”. Meu pai não gostava do som nasal, então…

E sempre precisei, de uma forma ou outra me justificar, me amparar na mania ufanista do meu pai: “você nasceu no Brasil, tem que ter nome brasileiro”. Poderia ser José, João. Porém, fã incondicional de Fórmula 1, deu aos dois filhos nomes de corredores: Emerso, pelo Fittipaldi, e Peterso, pelo sueco Rony Peterson (falecido no ano de meu nascimento), pensando que, ao tirar o “n”, nacionalizaria os nomes. Ouço essa história desde que me conheço por gente, de pequeno já ninguém me chamava pelo nome certo e eu me perguntava “Por que eu tenho que me chamar assim?”. Continuar Lendo »

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